Tuberculose: quando a tosse insiste em romper o silêncio

Não podemos subestimar esse mal, que não poupa ninguém, independente de classe social, gênero e idade.

O Sistema Único de Saúde e a rede suplementar têm identificado cada vez mais casos de tuberculose, muitas vezes em pessoas sem qualquer condição predisponente para o adoecimento.

Trata-se de doença causa por uma bactéria, a Mycobacterium tuberculosis, que está presente no ar exalado de pessoas com a infecção no pulmão ou em vias aéreas.

O contato efetivo, para haver de fato uma transmissão, pode levar tempo, às vezes algumas centenas de horas.

Após o primeiro contato, a maioria das pessoas não adoece, mas a infecção se instala e a bactéria permanece incubada, adormecida, e assim pode ficar por toda a vida em 90% das pessoas. Essa forma de infecção, chamada latente, naturalmente não transmite.

Depois do primeiro contato, em cerca de 10% dos casos, a tuberculose pode surgir e isso pode levar anos ou mesmo décadas (5% nos primeiros 18 meses após o contato e 5% no resto da vida). Essa proporção aumenta muito caso haja alguma condição que afeta a imunidade, como o uso prolongado de determinados medicamentos, infecção pelo HIV, diabetes etc.

É muito comum a doença se instalar nos pulmões e na pleura (membrana que reveste os pulmões), mas eventualmente a tuberculose se localiza em gânglios (ínguas), ossos, meninges, intestino etc.

Na maioria das vezes, a tuberculose envolve o pulmão (90% dos casos) e se apresenta com os sintomas a seguir:

  • Febre: mais comum no final da tarde, não muito elevada, diária ou quase diária. Alguns pacientes não têm febre ou a apresentam muito raramente.
  • Suores noturnos: é comum o paciente relatar que acorda no meio da noite com a roupa de cama molhada de suor, mesmo quando não está calor.
  • Tosse: este é o principal sintoma. Pode ser seca ou com secreção. Às vezes, há sinais de sangue no escarro. O que chama mais a atenção é o tempo prolongado de tosse (pelo menos duas semanas). Muitos pacientes já fizeram uso de xaropes, antibióticos, nebulizações etc. sem melhora.
  • Queda do apetite e emagrecimento: A perda de peso ocorre na maioria das vezes, lentamente, sem intenção,  por causa da falta de apetite. Nem todas as pessoas perdem peso, principalmente quando o diagnóstico é feito sem demora. Já atendi pacientes com tuberculose e acima do peso.
  • Mal estar e desânimo: muito característico, mas esses sintomas às vezes são atribuídos erroneamente ao dia-a-dia corrido, problemas pessoais etc.
  • Falta de ar: a capacidade de praticar alguma atividade física ou mesmo uma caminhada pode ficar prejudicada. Quando a tuberculose ocorre na pleura, alguns pacientes queixam de falta de ar conforme a posição do corpo (por exemplo, pode ser mais intensa quando se deita de lado).

Todos esses sintomas podem estar presentes, mas às vezes apenas um ou dois deles são relatados. A tosse é o sintoma mais comum na tuberculose pulmonar.

 

O que fazer caso eu tenha esses sintomas?

Quem apresenta os sintomas descritos, especialmente a tosse, deve procurar uma unidade básica de saúde ou o médico da confiança, para avaliar a possibilidade de tuberculose.

Quando a suspeita clínica se confirma, os exames necessários para o diagnóstico são o exame de escarro (normalmente pede-se pelo menos duas amostras, colhidas em dias diferentes) e a radiografia de tórax. Outros exames podem ser necessários para esclarecer o caso, a critério do médico.

O exame de escarro pode ser negativo (ou seja, normal) e mesmo assim a pessoa ter tuberculose. Isso ocorre em quatro casos, em cada dez. Às vezes, a confirmação do diagnóstico só ocorre quando o paciente responde ao tratamento.

A radiografia de tórax pode mostrar toda sorte de alteração, desde cavitações (pequenos buracos dentro do pulmão), líquidos, imagens parecidas com pneumonia (o que engana, às vezes) e pode até ser normal em até 15% dos casos (com alterações apenas vistas na tomografia, outro exame mais sofisticado).

Existe outro teste, chamado PPD, que consiste em aplicar uma substância na pele do paciente e, após dois dias, verificar se houve a formação de uma pequena elevação na pele e medir o tamanho da reação. Os casos positivos indicam que já houve o contato com o bacilo da tuberculose, mas não significa que seja um caso de tuberculose ativa. Por isso, o PPD dá mais uma pista, mas não define o diagnóstico.

Há outros exames mais precisos e modernos, como a pesquisa do DNA da bactéria no escarro e um exame de sangue (IGRA). O primeiro, além de detectar a bactéria, avalia se ela é tratável com os antimicrobianos habituais. O segundo (IGRA) fornece informação sobre o contato prévio com a bactéria. Na maioria dos casos, os exames mais tradicionais são suficientes para detectar o problema, estão disponíveis no SUS e são custeados pelos planos de saúde.

Exames de sangue gerais, muitas vezes feitos em rotina e o exame para o HIV também devem ser realizados.

O tratamento é 100% gratuito, distribuído exclusivamente pelo SUS (mesmo para pacientes do sistema privado) e altamente eficaz.

Trata-se de uma combinação de quatro medicamentos, que devem ser tomados uma vez ao dia, por pelo menos seis meses.

Os pacientes experimentam melhora rapidamente e por isso alguns abandonam o tratamento antes do fim, facilitando o retorno dos sintomas e o surgimento de formas resistentes ao tratamento inicial. Devemos ir até o fim com o tratamento, mesmo quando já não há sintomas.

Após 15 dias de tratamento e havendo melhora do paciente, o risco de transmissão é considerado muito baixo.

Nos casos de tuberculose pulmonar com exame de escarro positivo, deve-se examinar todos os contatos próximos como familiares e pessoas que vivem na mesma casa, oferecendo exames complementares, a fim de diagnosticar precocemente a tuberculose e, dependendo do contato, prescrever um medicamento capaz de reduzir significativamente o surgimento de tuberculose no futuro.

 

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